Thursday, September 5, 2019

"Os budistas devem ser bons". Quantas vezes você já ouviu essa? Os budistas são estereotipados como sendo sempre agradáveis, falando mansinho e sendo calmos, e nem sempre somos assim.

Certamente, o Buda nos ensinou a cultivar a bondade amorosa e a compaixão. A prática do discurso correto exige se abster da linguagem rude e abusiva. Isso não é a mesma coisa que ser bom?

Talvez não. Muitos professores budistas dizem que ter compaixão e ser "bom" são duas coisas diferentes. Na maioria das vezes, ser "bom" é apenas uma convenção social. Isso não diz nada sobre se relacionar com outras pessoas exceto em um nível superficial. Até sociopatas podem ser bons (eu até cheguei a ver isso com os meus próprios olhos). As vezes o cara que está gritando e jogando móveis é aquele que se importa.

A compaixão idiota


"Compaixão idiota" é um termo atribuído ao falecido Chogyam Trungpa Rinpoche, apesar de que ele pode ter pego o termo emprestado do mestre espiritual russo George Gurdjieff. A compaixão tola pode assumir várias formas.

O Rinpoche relacionou isso a "fazer o bem" como um ato de autogratificação.

"Compaixão idiota é a ideia altamente idealizada de que você deseja fazer o bem a alguém. Nesta altura, "bem" é algo meramente relacionado com o prazer. A compaixão idiota também se origina de não ter coragem suficiente para dizer não."

A aluna de Trungpa, Pema Chodron, elaborou:

"Isso se refere a algo que nós todos fazemos e chamamos de compaixão. De certa forma, isso é chamado de apoio. É a tendência geral de dar às pessoas o que elas querem porque você não suporta vê-las sofrer. Basicamente, você não está dando o que elas precisam. Você está é tentando escapar dos seus sentimentos de "Eu não posso suportar vê-las sofrer". Em outras palavras, você está fazendo isso por si mesmo. Você não está fazendo isso por elas."

Ser "bom" é muitas vezes uma estratégia para evitar conflitos. Mas evitar conflitos não é algo bom? Nem sempre; há momentos que se envolver em um conflito é compaixão. Por vezes o desejo de tentar ser "bom" é sobre manter uma fachada pólida e agradável em uma situação que a gente não quer enfrentar.

Por exemplo, tivemos algumas situações no budismo ocidental no qual um professor estava tirando vantagem sexual dos seus alunos. E por vezes a situação era permitida a continuar por algum tempo, mesmo depois dela ter se tornado conhecimento comum, em grande parte porque os outros alunos pensavam que eles não deviam criticar. Mas às vezes, porém, os problemas precisam ser abordados, e falar a coisa "segura" e "socialmente correta"  para que você possa ser parte da multidão está muito longe da prática do discurso correto.

Existe uma diferença entre a "crítica" que derruba outras pessoas para nos edificar, e a crítica qualitativa sobre uma situação ou comportamento. Se o "discurso correto" significa que somos obrigados a ser omissos e ficar sorrindo enquanto alguém chuta um cachorro ou põe uma criança em risco, você pode ficar com esse discurso pra você.
Felizmente, não é esse o caso.

No entanto, muitos de nós está tão bem condicionado a mantermos os nossos narizes fora das atividades de outras pessoas que dessa forma pode ser verdadeiramente desconfortável se manifestar. É bem mais fácil ignorar as coisas, desviar os olhos e dizer a si mesmo que você não está sendo crítico.

Mas esses são os momentos em que você não está sendo crítico, porque não é o seu ego que está te dizendo pra se manifestar. Se a sua coragem está te dizendo que algo precisa ser feito, mas você teme fazê-lo por causa de como as outras pessoas vão reagir a você, então é o seu ego que está te dizendo para ficar quieto. Se você sabe que algo está errado, mas precisa abrir caminho através de uma parede interna de condicionamento e de medo da censura social pra se manifestar, então muito provavelmente você precisa se manifestar. E outras pessoas também precisam que você se manifeste.

Outro exemplo de compaixão idiota é responder de forma inapropriada por ignorância da situação. Por exemplo, após grandes catástrofes, tais como tsunamis ou furacões, as pessoas querem naturalmente ajudar as que estão necessitadas. As organizações de fins não-lucrativos, todavia, dizem que esse tipo deajuda geralmente piora as coisas. Pessoas bem-intencionadas enviam latas de comida de seus armários, além de sapatos e roupas que sobram, e os trabalhadores voluntários dizem que distribuir essas coisas é um pesadelo e uma drenagem dos seus próprios recursos. Além disso, muitas das vezes o que é enviado não é realmente o que é necessário. Se você quiser ajudar, é quase sempre melhor encontrar uma organização de caridade e sem fins lucrativos que você confia e mandar algum dinheiro.

No budismo tibetano, Mahakala é a emanação irada de Avalokiteshvara, o bodhisattva da compaixão.

Compaixão inteligente

A compaixão genuína tem a sua raiz na sabedoria. "Sabedoria" no sentido budista é não se apegar ao que nos faz sentir bem ou fazer o que pensamos que fará as pessoas gostarem de nós. Em vez disso, a sabedoria é perceber a situação tal como ela é sem que o nosso próprio interesse nos atrapalhe. A sabedoria nos ajuda a responder apropriadamente e com uma mente clara a uma situação difícil.

Mas agora nos deixe entrar nas situações sociais do dia-a-dia, que é onde a grande maioria de nós vai tropeçar. Você se encontra discustindo uma questão social ou política com alguém cuja opinião você considera verdadeiramente abominável.
Você falaria isso a ele?

Thich Nhat Han nos fornece um exemplo de alguém que se manifestou em questões difíceis sem quebrar os seus votos. Quando ele veio ao ocidente a primeira vez, foi para falar contra a guerra dos EUA no Vietnã. Ele frequentemente enfrentava pessoas irritadas dizendo a ele que sua posição estsva errada, mas mesmo assim ele conseguiu não perder sua compostura e a responder com raiva. Esse professor venerado advoga um treinamento mindfulness para orientar as nossas ações. Lembrar a nós mesmos que a pessoa com quem estamos conversando é um ser humano e não apenas um chato tagarela com opiniões também ajuda. Mas responder com compaixão a visões odiosas não quer dizer que nós não expressar um desacordo firme.


[Este artigo fora postado originalmente no site https://rethinkingreligion-book.info/]